Tuesday, April 3, 2007

o lado perpétuo da decadência existencial

A decadência é algo que perdura, entendi! É algo que se prolonga e não finda já por coisa alguma, arranstando consigo a memória que se quer a todo o custo fazer esquecer. Percebi-o eu desde sempre e tal realidade feria-me por dentro de uma forma brutal. A princípio foi a loucura, a insanidade total, o não querer sentir e sentir-me profundamente irreal mas depois vem a acomodação imposta pelos outros, por aqueles que não sentem nem sentem falta de sentir. Não vos entendo nem vós me entendeis...não existe igualdade entre nós porque eu não sou isso, não sou uma cidadã, não sou católica, uma contribuinte nem sou o motor da humanidade. Não sou nada, somente nada. No entanto, sei agora que esse nada existe e que perdura e que se espande despropocionalmente a quase nada, a quase ilógico. Sei-o.
Para mim, marcel, a vida é isto. Entendes-me agora, finge que sim pelo menos porque neste momento prefiro a tua mentira inútil à tua verdade cuel, prefiro que coçes a cabeça como sempre fazes quando te pergunto o que é que a Moral significa para ti e se eras capaz de ir viver para a Alemanha mesmo depois de saberes que Nietzsche matou o teu Deus e fez nascer um superhomem que não serve para rigorosamente nada. VINDAS DE MIM ESTAS PALAVRAS SOAM A ESTRANHO NÃO É? Nunca to tinha dito mas desconfio profundamente de ti: quando não sabes o que dizer bem vejo que inventas respostas para me fazeres agradar ou, mesmo me desagradando mas não o sabendo tu de antemão, tentas no improviso acertar. Digo-te agora que as respostas que procuro não são nem visam ser assertivas, não procura a tua verdade, aquelas certezas que tu não tens em ti! Sei que não te sei dizer que não mas isso não significa que siga o que tu dizes, simplesmente faço como quando vou lá à mercearia da aldeia e a dona Elvira inventa preços à medida para mim e eu penso que é injusto mas vejo-me forçada a pagar o preço que ela impõe. Achas tu ainda que sou uma privilegiada?! Nem sempre quem cala consente, no meu caso calo porque não tenho força ou vontade para protestar simplesmente renuncio á minha liberdade autodeterminada, seja lá o que isso for.
À pouco procurei Antígona mas não o encontrei! Só me resta agora Prometeu, o teu herói de sempre tenha ele mais ou menos fígado...é o teu herói, o teu símbolo, a tua espada. Roubar o fogo aos Deuses não é para qualquer um dizes, o símbolo da desobediência á autoridade suprema dos Deuses ou do Estado, como queiras, só vives com isso e para isso, por si só! Mas o porquê, eu quero é o porquê! Essa liberdade enche o teu ego de euforia, sentes­-te pleno mas porquê? O que fazes tu com ela? Podes tudo? Lembro-me quando me ensinaste quem foi Zenão de chipre e os ideais estóicos, que eu quis agarrar. São eles o panteísmo hodierno. Claramente me identifico com ele. Mas algo continua a falhar nesta teoria, aqui percebo o porquê mas não o aceito, não o quero, não o desejo verdadeiramente apenas o encaro como uma fuga, o defino por exclusão de partes e, como não sei para e por onde ir, tudo me parece á partida errado( olha, já pareço usar as tuas palavras...agora também qualifico a realidade e digo-a certa ou errada! O que a tua influência não faz em mim!) Não possuo teoria nenhuma bem o sabes, nem poderia depois de ver o Álvaro é mesmo impossível, ele convence-me sempre nem sei bem como. Mas não é intencional, apaixonei-me pelas suas palavras e agora não existe volta a dar, deixei de ter o tal filtro protector e agora não estou mais imune ás suas vontades, é mais forte do que eu. A sua persuasão é uma realidade interna tão forte que quando estou na sua presença esqueço o mundo exterior, fico de tal maneira embevecida por aqueles vivos olhos verdes, por aquela expressão alucinada, por aquele sentir...e depois vem os estóicos a berrarem-me aos ouvidos: não sintas, não ames, não oiças o que ele diz porque o que tu queres é o nada, o que tu queres é o não sofrer, o que tu queres é o nirvana! Queres é ouvir os poemas da lídia á beira mar mas nunca podes entrar nessa água, nem mesmo para molhar os pézinhos nas margens. “Tens de permanecer impávida e serena, sempre”. E depois vens tu Marcel a dizer isto está errado, aquilo está certo e mesmo sem confiar, sigo-te. Quando estou embriagada corro a tua casa á procura de ajuda e o que mais sabes é dizeres-me que no dia seguinte tudo passa, ora isso já eu sei, até aqui nada de novo. O purgatório, Marcel, é isso que rejeito porque entre o céu e o inferno de Dante não sei o que existe, mas talvez pertença aí, na dúvida permaneço aí porque dizem que no meio está a Virtude, a Jutiça, a Prudência, a Ponderação, a Razão, a recta ratio. Dizem que sim.
Ando farta destas nossas conversas sabes, porque nunca levam a lugar algum, no entanto, falta-me a coragem de te infrentar, de te olhar literalmente de frente e dizer-te que bem podes ir para a tua viagem até Oxford, seguida da visita à biblioteca de Alexandria, ao Museu de Bilbau, desculpa engano-me sempre: Guggenheim, do Louvre, da Cuba de Fidel, Havana e cahrutos, os jardins da Babilónia, a muralha da china, o acrópole na Grécia Antiga e eu que ultimamente tenho sonhado com o Chile por causa da Ilha da Páscoa que me habituei a ver nos desenhos animados que me acompanhavam nas peripécias infantis. O coliseu de Roma e o Cristo redentor já não te despertam tanta curiosidade, já para mim seria o êxtase pisar o solo do coliseu que estudei em latim e o Cristo que vejo nas novelas brasileiras. Imaginaste alguma vez o que seria percorrer as ruas d S.TROPEZ a ouvir fur elise? Bem, parece que mesmo findando as nossas converas permenece a nossa necessidade de nos termos um ao outro, sem conversas, só com olhares e sentires distintos mas que se completam por isso mesmo. Nunca irei a lado nenhum sem ti, pelo menos por vontade própria, pelo menos não vou sem sentir a falta que me fazes pelo simples facto de não te sentir presente. Não és como o Álvaro, não, mas não tentas sê-lo, és conscientemente narcisista, independente, assertivo e espontâneamente verdadeiro! Quero-te só por isso mas o drama está em que não sei viver contigo nem tão pouco longe de ti! Custa-me mesmo infrentar-te porque não tens dilemas e eu repleta deles, não tens medos e eu não sei o que é não tê-los, tens um Deus que te dá respostas e a mim Ele nem se mostra. Isso irrita-me. Não sei se é inveja este sentimento, não sei se é apatia, por vezes quando parece que me vais abraçar e te retrais sinto que sabes que apesar de te querer, não te desejo assim tanto ao ponto de me deixar embarcar em rotas com percursos calculados, em empiristas convictos de experiência, em homens concretos. Mas tu não tens filtros, sabes mentir como ninguém mas não precisas de fazê-lo já que a facticidade do mundo se adequa sempre a ti e então tu sorris e dizes-me: “eu bem disse”, “tal como eu dizia”.
Acordaste muito cedo hoje e estás tão calmo que pareces inquieto. Parece confuso mas a verdade é que quando estás realmente atormentado o teu comportamento exterior deixa de exprimir o que quer que seja, a tua euforia revela que estás bem, contrariamente. Estás sempre feliz, ou melhor estás sempre contente e por isso és feliz. Hoje não. E a tua resposta é sempre a mesma , de que nem sempre podemos sorrir.
Aplausos. Gritos. Euforia. Outro dia chegou. Diz porque ainda não arranjaste um sentido para a vida e sorris tanto? Porque és louco? A vida amedronta-te e tu não mostras medo, reages. Sabes que é finita e és calmo. Sabes que é mordaz e vergas-te. Avanças para mais tarde recuar e mesmo assim sorris, porquê? A tua felicidade envergonha-me, retraio-me pela incompreensão do teu sentir.
Aplaudam. Gritem. É a excitação, a exaltação dos sentidos. Mas corram longe de mim que eu não vos quero alcançar, sem sentido não vou, não vos acompanho. Qual liberdade? eu não tenho escolha? Obrigam-me a correr também mas eu não quero. Faz-me isto lembrar aquelas corridas de escola em que nem sequer medalha há, não há recompensa pelo esforço e como tal deixa de existir qualquer tipo de motivação para chegar em primeiro lugar, para chegar. Assim não quero. Fico para trás, então.
Sabes aquele dia em que te disse que te queria, quis mesmo guardar-te para mim, quis te sentir. Não te amo. Como o poema do Garrett, eu quero-te mas não te amo. Guardo-te. Tenho-te ao pensar-te. Sinto-te ao me sentir. Somos iguais. Somos pedintes sem causa, amantes incondicionais. Mas não somos livres, não. Somos mortais.
Já me passou a doideira como tu dizes...já estou normal, pronta para o ritual de todos os dias: casa/ escritório, escritório/ casa, monólogos intermináveis nas filas de trânsito a caminho de casa e comprinhas nas lojinhas da baixa ao fim de semana quando está bom tempo e o corpo não está de folga. A vida citadina é isto mesmo, um diálogo redutor connosco próprios e um vazio gigantesco no lado invisível do corpo, uma amálgama de frustrações, um sentir desesperado. E sentes que quanto mais corres mais deves correr, que tudo foi pouco, já parece como quando vou de metro (no dia mundial sem carros pelo menos vou de metro) e toda a multidão me atropela e aí, mesmo sem pressa eu corro, vejo correr e acelero também, aí ninguém me pára! È que nem nos tempos da faculdade eu corria tanto, nem mesmo quando fugia da sopa sem sal da cantina. Hoje até tenho saudades.

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